CINZA FEITO CAFÉ
O café sempre foi pungente.
Não acredito em como as pessoas conseguem apreciá-lo.
Nem em mim mesmo, acredito.
Ah! o café. Aquele aroma revigorante que preenche todas as manhã,
tardes, e algumas noite.É falso.
São apenas nossas papilas gustativas, e a fome da noite, devorando.
Doutrinando.
O nosso cérebro para o rítmico, acordar e desejar, o café. Nunca fiz o meu próprio. Primeiro minha mãe; Os rapazes da república; Agora a padaria a duas quadras.
Nunca gostei realmente, apenas desejo.
Essa palavra com quatro letras, fonemas curtos que todos, todas, e a tudo, animais e plantas, dela necessitam, para estarem vivos, sentirem-se vivos.
Fome. Café.
Andando duas quadras. Ele sempre me moveu, mas não gosto. Apenas o gosto.
Todo dia pelo mesmo caminho, não que fosse [àquela altura da vida] um adepto da rotina, ou tradições, do tradicionalismo, só o café.
As calçadas pequenas da cidade do interior mesclavam-se dissonantes com os novos prédios de seis andares. Sabia décor quantos passos até a padaria, eram **** mil, e, se algum dia contei até mil foi só por tédio, gostava de enganar meu cérebro, a maneira que arrumei para deixar os dia menos monótonos.
Afinal, mono tons, possuíam uma beleza sublime. Um só tom. Sem mudar, complexos, simples, agudos e fortes.
Cinza, tinha decidido que o dia seria cinza.
Combinava bem com o preto do café, e o céu doentio da tormenta que se aproximava.
Tormentosamente aquele momento seria gravado em meu velino.
Lembro-me com clareza, era cinza. Sim, tenho certeza, a camisa era cinza como o céu.
Cabelos desgrenhados de quem acorda de supetão, e põem-se a andar.
Andar. Continuei.
Os olhos eram nítidos também, espelhos reflexivos.
Profundos, tediosos.
Foram exatamente *** passos, segundos, conto até hoje.
Duas portas abertas.
Não adentrei, mas olhei pelo olho mágico reverso.
Ou era ela que espiava. Não tenho certeza, porém, despi-me.
E a ela também.
Sem o cinza, vi sua alma. Foi um contato, uma relação.
Um fazer amor com os olhos.
Rápido, sereno, intenso, **segundos. uma vida inteira.
Vi-me as soleiras da porta - estava dividido entre a lealdade que devia à padaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, e à estranha sensação de que tudo aquilo era sonho como algo real por dentro.
Sentei-me na mesa do fundo das cantoneiras, onde o esquadro de vidro refletir-me-ia.
- Olá, oh Esteves - respondeu-me:
- Olá.
Com a xícara de café longo nas mãos.
O conheço, ele me conhece, é o Esteves que trabalha aos balcões da padaria na manhã. Perplexo comigo mesmo, o poema que li na noite passada agora tomava forma em mim.
Genialidade curta de quem vivia de poemas.
Curtos, efêmeros. Como a vida, como aquele encontro.
O mundo, cinza, talvez tivesse outra cor – azul – o poeta já havia ensinado que azul, era cor dos desejos, ou a que viria se não existissem tantos.
Cinza, era a camisa, e os olhos.
Calcinados como o céu, naquela manhã, queria o céu assim. Mas foram os olhos que tive.
A vida não se resumiria.
Não.
Sempre fiz resumos, apesar de pôr preferência, ler poemas.
Estes, eram subjetivos demais para fazê-los.
Escrevia apenas registros curtos que lembravam-me a totalidade.
Aquilo, contudo, havia sido de outro jeito, outro gênero, textual.
Era poesia.
…
Não sei quanto tempo os linguistas definiriam por momento efêmero, talvez só o tempo que leva para se dizer, E-F-E-M-E-R-I-D-A-D-E, contudo, apenas ouvi que seria a brevidade da vida. Sendo assim, já havia vivido todo esse tempo naqueles poucos passos.
Poderia morrer, feliz.
E se morresse? Se deixasse, logo eu morreria, aqueles olhos morreriam – PARE – já chega deste poema! [Não quero dever lealdades inúteis, tais quais o poeta.]
Não posso ser mais que eu, não há espaços para heterônimos em mundo mono tons.
Mas, foi diferente.
Aqueles cabelos, como alguém teria coragem de pisar fora do prédio, e pôr-se à andar com os rebeldes cabelos.
Tão démodé, lembrei da adolescência, um resquício.
Ah! - sim, a tarde talvez seria mais azul
[Não avançando no tempo, mas foi].
...
A cantoneira, estofada já possuía meu formato, uma forma, molde. Moldar.
Juntar pelotas de barro, girar a roda e construir.
Construir.
Verbos são sempre espirituosos, cheios de vida, movimento,
ali só houve espaço para um adjetivo impróprio, cinza.
Moldei-me, construí-me, e no final.
O café fumegante, quase havia esquecido de contar, café e pão com manteiga na chapa, só ** centavos. Mantinha minha fidelidade, meu vício.
Um gole longo, e devorar um gorda mordida.
Mordi, não só pão e gordura.
A gordura da monotonia já havia deixado meu cérebro obeso.
Aquele exercício rítmico da manhã, o secará. Agora, uma máquina de produzir possibilidades.
Li, ouvi falar, ou qualquer uma destas frases que antecedem um conhecimento aleatório, que nos faz parecer intelectuais, que existiam geradores de improbabilidades.
O meu, inverso, das [im]probabilidades, gerava prováveis reencontros.
Planos miraculosos.
Mais um gole e o último pedaço.
Ajeitei-me ao acento.
Agora seria uma questão de segundos, e já estaria imaginando se na próxima manhã os caminhos novamente cruzariam-se.
E na semana seguinte.
Nutria uma certeza, exageradamente infantil, que o mundo não seria mais cinza.
Contudo acinzentaria se nenhuma das probabilidades estivesse disposta a tornar-se real.
Construí-me. Moldei-me, e no final.
O último gole e o estalido da xícara na mesa, resgataram-me do estranho culto ao devaneio da manhã.
Olhei-me no espelho novamente.


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